Publicado em 05/03/2026 às 07:57,
Mato Grosso do Sul ocupa a quarta colocação entre os estados brasileiros com maior taxa proporcional de feminicídio. Os dados fazem parte do relatório Retrato dos Feminicídios no Brasil (2021–2025), divulgado nesta quarta-feira pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
De acordo com o levantamento, o Estado registrou 39 feminicídios em 2025, o que representa uma taxa de 2,6 mortes para cada 100 mil mulheres. O índice está acima da média nacional, que foi de 1,43. Mato Grosso do Sul aparece atrás apenas do Acre, com taxa de 3,2; Rondônia, com 2,9; e Mato Grosso, com 2,7.
No acumulado dos últimos cinco anos, entre 2021 e 2025, o Estado apresentou crescimento de 14,3% nos casos de feminicídio. Somente entre 2024 e 2025, o aumento foi de 10,5%. Os registros ao longo do período mostram oscilações: foram 33 casos em 2021, 44 em 2022, 30 em 2023, 35 em 2024 e 39 em 2025.
Enquanto isso, em nível nacional, os estados que tiveram os maiores aumentos no período foram Amapá, com crescimento de 120,3%, São Paulo, com 96,4%, e Rondônia, com 53,8%.
Outro ponto destacado pelo estudo é a relação entre os feminicídios e as Medidas Protetivas de Urgência previstas na Lei Maria da Penha. Em Mato Grosso do Sul, 5,9% das mulheres assassinadas tinham medida protetiva vigente no momento do crime. Embora o percentual seja inferior à média nacional, de 13,1%, o dado demonstra que, em alguns casos, a proteção formal não é suficiente para evitar o desfecho fatal.
Um exemplo citado é o caso de Aline Barreto da Silva, de 33 anos, assassinada em dezembro de 2025 no município de Ribas do Rio Pardo. A vítima havia solicitado medida protetiva contra o agressor meses antes, mas a proteção estava inativa no momento do crime após a retomada do relacionamento. Aline foi morta a facadas dentro da própria casa pelo ex-companheiro, na presença dos filhos.
O relatório também chama atenção para o fato de que municípios menores concentram taxas mais altas de feminicídio. Cidades com até 50 mil habitantes registraram taxa de 1,8 mortes por 100 mil mulheres em 2024, quase 30% acima da média nacional.
A falta de estrutura de atendimento também é apontada como um fator preocupante. Segundo o estudo, apenas 5% dos municípios pequenos do país possuem Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher e apenas 3% contam com casas abrigo para acolhimento das vítimas.
O levantamento também traça o perfil das vítimas. Entre 2021 e 2024, 62,6% das mulheres assassinadas no Brasil eram negras. Metade das vítimas tinha entre 30 e 49 anos, faixa considerada de idade produtiva. No entanto, 29,4% tinham entre 18 e 29 anos, e 15,5% tinham mais de 50 anos, o que demonstra que a violência atinge mulheres de diferentes faixas etárias.
Outro dado relevante é que a maioria dos feminicídios ocorre dentro de relações próximas. Cerca de 60% das vítimas foram mortas pelo parceiro íntimo e 21,3% pelo ex-companheiro. Apenas 4,9% dos casos envolveram desconhecidos. A autoria dos crimes também é majoritariamente masculina: 97,3% dos casos com autor identificado foram cometidos por homens.
O estudo também aponta que a residência da vítima é o principal local dos crimes. Pelo menos 66,3% dos feminicídios ocorreram dentro de casa, enquanto 19,2% aconteceram em vias públicas.
Quanto aos meios utilizados nos crimes, quase metade dos casos — 48,7% — envolveu arma branca, como faca, machado ou canivete. Já as armas de fogo foram utilizadas em 25,2% das ocorrências.
Os dados reforçam que o feminicídio está, na maioria das vezes, relacionado a relações afetivas marcadas por controle, violência e desigualdade de poder, evidenciando a necessidade de fortalecimento das políticas públicas de proteção às mulheres.