Em novembro de 2002, o assassinato de um casal de classe alta em São Paulo ganhou o noticiário brasileiro. Manfred e Marísia Von Richthofen foram mortos a mando da filha deles por um namorado da jovem à época, Daniel Cravinhos, e o irmão dele. Mais de 20 anos depois, moradores de Anastácio apontam semelhanças do caso com um crime cometido na cidade do interior de Mato Grosso do Sul.
Maria Clair Luzni e Vilson Fernandes Cabral foram encontrados mortos dentro da própria casa no dia 28 de março, na Rua Nicandro Saravi, na Vila Juí, um dos últimos bairros da periferia de Anastácio. A suspeita é de que o crime tenha sido encomendado pela filha do casal, Maria de Fátima Luzni Fernandes, de 26 anos, e executado pelo companheiro da jovem, Wedebrson Haly, de 34, com envolvimento de outros dois homens na noite de 26 de março, uma quinta-feira.
Esses outros dois suspeitos, David Vareiro Machado e Wellington dos Santos Vieira, estão mortos. David foi encontrado morto pela polícia, sendo Wedebrson um dos suspeitos pelo crime.
Já Wellington morreu durante confronto com a polícia em uma rua da cidade. Imagens de câmera de segurança registraram o momento em que ele foi atingido de costas por policiais.
Queimou as roupas dos pais enquanto limpava a casa
Logo após o assassinato dos pais, Maria de Fátima Luzni Fernandes teria queimado as roupas dos pais e feito uma faxina na casa para limpar resquícios do crime.
Informações são de que Maria de Fátima faxinou a residência cantando e ouvindo música em som alto. “Ela limpava a casa com o sangue dos pais e cantava… Parecia feliz. Nunca vi uma coisa dessa”, disse um morador. Um vizinho falou sobre as brigas por causa da casa.
“Ela brigou tanto por causa da casa e, mesmo sendo herdeira única, não vai levar nada, porque matou os pais”, falou para o Midiamax. Outra vizinha contou: “Ela veio no domingo e queimou tudo. Cama e todas as roupas. Queimou e lavou tudo”.
Mesmo que a família Richthofen tivesse muito mais recursos que o casal Luzni Fernandes, a motivação do crime ocorrido em Anastácio também teve origem no dinheiro, conforme depoimento dos suspeitos à polícia.
A informação é que existia um desacordo entre os pais e a filha sobre a venda de uma casa da família, anunciada por R$ 120 mil, e pela qual Maria de Fátima receberia R$ 20 mil após a venda.
Na noite do crime, a vizinha conta que foram ouvidos gritos, principalmente de Clair. “Só escutamos o grito dela [Clair] porque eles [assassinos] não abriam a boca. Já tinham matado o pai nessa hora”, relata a vizinha.
“Quando tavam matando o pai, a mãe, acho, tentou pedir socorro pra fora. A parede ficou cheia de sangue”, completa.
Os desentendimentos familiares eram constantes, e brigas podiam se ouvir na casa frequentemente. “Sempre eles brigavam aqui, e ela falava: ‘Vou te matar, pai! Vou te dar fim!'”, conta a vizinha.
Segundo a delegada titular da Delegacia de Anastácio, Tatiana Zynger, a filha diz que foi abusada pelo pai na infância, o que aumentava as desavenças.
“Ela afirma que tinha um grande desafeto pelo pai, que ele abusou dela durante a infância e na adolescência, por isso, concordou com a ideia de Wedebrson em matá-lo. A ideia era castigá-lo pelos abusos”, detalha a delegada.
Os gritos de desespero não saem da memória da moradora. “Eu fiquei com dó dela. Ela chorava aquele choro doído. Sabe, uma dor tão grande”, compartilha.
Desconfiança sobre as mortes
Dois dias após a morte do casal, na noite da quinta-feira, dia 26 de março, o mau cheiro tomou conta da vizinhança.
“Quando foi sábado de noite, a gente não aguentava de [odor de] carniça e varejeira”, conta a moradora.
Além do cheiro forte, ela ainda relata que outra vizinha desconfiou das mortes porque Clair lavava pratos e roupa do lado de fora da residência, e não havia aparecido nos últimos dias.
Comportamento da filha do casal
A vizinha ainda conta que Maria de Fátima não demonstrou nenhuma tristeza pela morte dos pais. “Ela não punha uma lágrima com o pai e a mãe mortos por faca”, completa.
Ao Jornal Midiamax, a delegada Zynger esclareceu que os envolvidos apresentam versões diferentes e inconsistentes sobre o caso.
Maria de Fátima afirma que foi convencida pelo companheiro, Wedebrson, a “dar um susto” no pai. Na versão dela, o companheiro não aceitava que Maria de Fátima recebesse apenas R$ 20 mil pela venda do imóvel.
O desacordo levou Wedebrson a querer “dar um susto” no sogro, segundo a acusada.
“Ela tinha uma construção nos fundos dessa casa e, segundo ela, o Wedebrson queria que ela recebesse metade do valor da venda e, por isso, teria sugerido castigar o pai”, relata a delegada.
Diante disso e do relacionamento conturbado com o pai, marcado por histórico de abusos, Maria de Fátima decidiu aceitar o plano do companheiro, conforme o depoimento dela à polícia.
Maria de Fátima também teria admitido que contratou David por R$ 1 mil e que foi ele quem contratou Wellington dos Santos Vieira, morto pela Polícia Militar no dia 31 de março deste ano. Em depoimento, ela também alegou que a morte da mãe não foi planejada.
“Ela admitiu que contratou David e que ele contratou Wellington, mas afirma que não era para a mãe ter morrido. Segundo ela, o Wedebrson teria dito que a mãe dela estaria na casa da avó”, disse a delegada.
Wedebrson nega participação na morte do casal e alegou legítima defesa no assassinato de David.


