Buscar

Agora "terroristas", PCC e CV projetaram poder a partir da fronteira de MS

Cb image default
Sigla do Comando Vermelho, pixada em muro de residência de Dourados

A prisão de Gerson Palermo em Campo Grande, na quarta-feira (27), coincide com um momento histórico no combate ao crime organizado brasileiro. Enquanto o traficante apontado como uma das principais referências do PCC na fronteira boliviana era recolhido a uma prisão federal de segurança máxima, os Estados Unidos confirmavam a classificação do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho como organizações terroristas, decisão que deve afetar as relações e a cooperação entre os dois países. A coincidência recoloca uma questão que acompanha Mato Grosso do Sul há décadas: como uma mesma faixa de fronteira, que une o Estado ao Paraguai e Bolívia, ajudou a produzir personagens, rotas e estruturas que hoje mobilizam não apenas as autoridades brasileiras, mas também, por mais polêmicas que a decisão ainda vai gerar, a maior potência do planeta?

Nas últimas décadas, a fronteira foi disputada por pelo menos meia dúzia de traficantes de peso. Fahd Jamil, Rafaat, Beira-Mar, Cabeça Branca, Major Carvalho e Palermo pertencem a épocas diferentes, mas todos acabam esbarrando na necessidade de proteção política, policial, empresarial ou institucional para sustentar operações de grande porte. À luz das leis brasileiras eles atuam como integrantes do crime organizado e devem ser combatidos por instituições policiais.

Traficante e sequestrador de avião, Palermo passará 20 dias em isolamento total

Polícia de Goiás volta ao MS em nova fase contra facção do tráfico interestadual

A rota da cocaína - A lista é extensa. Passa por Fahd Jamil, o lendário "Rei da Fronteira"; por Jorge Rafaat Toumani, cuja morte abriu caminho para a expansão do PCC na região; por Luiz Carlos da Rocha, o Cabeça Branca; por Fernandinho Beira-Mar; pelo ex-major da Polícia Militar Sérgio Roberto de Carvalho, apontado como um dos maiores traficantes internacionais já surgidos no Brasil; e chega a Palermo, identificado pelas autoridades como uma das principais referências do PCC na fronteira boliviana.

Apesar das diferenças de perfil e época, todos encontraram na fronteira de Mato Grosso do Sul um ambiente favorável para construir ou expandir seus negócios ilícitos.

De rota de passagem, a região transformou-se em uma plataforma logística de alcance continental. De um lado, conecta o Brasil aos grandes centros produtores de cocaína da Bolívia, Colômbia e Peru. De outro, oferece corredores rodoviários, ferroviários, fluviais e aéreos capazes de distribuir drogas para os principais mercados consumidores do país e, mais recentemente, para a Europa. O ex-superintendente da Polícia Federal em Mato Grosso do Sul, Edgar Marcon, compara essa dinâmica a uma cadeia industrial.

"Você tem a fabricação e precisa levar o produto até o consumidor final. No meio tem a transportadora. É onde nós nos enquadramos aqui no Estado", afirma.

Na avaliação do delegado aposentado, Mato Grosso do Sul continua estratégico para o tráfico internacional, mas ocupa sobretudo a função de corredor logístico.

"Nós somos rota", sintetiza.

O ex-superintendente da Polícia Federal em Mato Grosso do Sul, Edgar Marcon, em entrevista ao Campo Grande News. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

O preço da proteção - Ao longo dos anos, investigações policiais, processos judiciais e operações de combate ao crime organizado revelaram indícios recorrentes de cooptação e corrupção de agentes públicos. Fahd Jamil construiu fama pela influência exercida sobre estruturas de poder na fronteira. Jorge Rafaat movimentava uma fortuna capaz de sustentar um sistema próprio de proteção. Sérgio Roberto de Carvalho atuou durante anos como oficial da Polícia Militar antes de ser expulso da corporação e tornou-se símbolo da capacidade de infiltração do narcotráfico em estruturas estatais. Em outro episódio emblemático, o desembargador sul-mato-grossense Divoncir Maran acabou aposentado compulsoriamente após ser acusado de favorecer interesses ligados ao crime organizado ao conceder o benefício que permitiu a Palermo fugir do país em 2020.

Para Marcon, a capacidade de infiltração das organizações criminosas exige que o próprio Estado fortaleça seus mecanismos internos de controle.

"Quer combater o crime, tem que fazer o dever de casa primeiro", afirma.

Segundo ele, nenhuma política de enfrentamento produz resultados duradouros sem supervisão permanente das instituições encarregadas de executá-la.

"Você tem que confiar em quem está trabalhando contigo. Tem que ter controle."

Na sua avaliação, o crime organizado só alcança tamanha dimensão porque encontra brechas de corrupção ao longo do caminho.

"O crime só consegue se sustentar porque existe a corrupção."

Tomados isoladamente, os casos contam histórias distintas. Observados em conjunto, sugerem um fenômeno mais amplo: a capacidade das organizações criminosas de converter poder econômico em influência institucional, transformando riqueza ilícita em proteção, acesso e capacidade de pressão sobre estruturas que deveriam combatê-las.

Terrorismo ou crime organizado? - A prisão de Palermo ocorre justamente quando o tema das facções brasileiras alcança uma dimensão inédita. Depois de meses de pressão de setores da direita brasileira, entre eles o senador e candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, o governo dos Estados Unidos decidiu classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas na noite desta quinta-feira (28), elevando o combate às facções brasileiras a um novo patamar diplomático e de segurança.

A avaliação, porém, está longe de ser consensual. Em nota divulgada nesta quinta-feira (28), o Fórum Brasileiro de Segurança Pública reconheceu a classificação como uma decisão soberana dos Estados Unidos, mas alertou para os riscos de transformar um problema complexo em bandeira eleitoral. A entidade destacou a longa tradição de cooperação policial entre os dois países e defendeu que o enfrentamento das facções passe pela retomada de territórios e pela regulação de setores hoje explorados pelo crime organizado, como fintechs, apostas eletrônicas e criptoativos.

Marcon considera equivocada a equiparação.

"PCC está longe de ser um grupo terrorista", afirma.

Para ele, o enfrentamento dessas organizações depende menos de novas classificações jurídicas e mais do fortalecimento da cooperação policial internacional.

"O que teria que ser feito é o que sempre foi feito: cooperação. Troca de informação, trabalho conjunto, mas cada um na sua. Operacionalmente, quem faz são as nossas polícias", defende.

A avaliação converge, ao menos em parte, com as preocupações manifestadas pelo promotor Lincoln Gakiya e pelo ex-secretário nacional de Segurança Pública Mario Sarrubbo, que alertaram para possíveis impactos da medida sobre os mecanismos de cooperação internacional já existentes.

Da fronteira à Faria Lima - Sob essa perspectiva, Mato Grosso do Sul ocupa posição singular. Muito antes de PCC e Comando Vermelho se tornarem tema de debates em Washington, os sinais da internacionalização do crime organizado já estavam presentes na fronteira sul-mato-grossense.

Fahd Jamil simboliza uma época em que o poder criminal estava associado ao controle de territórios, relações pessoais e influência local. Jorge Rafaat, assassinado em 2016, representa a fase das grandes redes binacionais que conectavam Brasil e Paraguai, primeiro no contrabando e descaminho de mercadorias e depois no comércio de cocaína. Fernandinho Beira-Mar consolidou ligações com fornecedores cartelizados da Colômbia. Cabeça Branca elevou o narcotráfico brasileiro a um patamar empresarial e internacional. Palermo tornou-se expressão da expansão do PCC sobre as rotas bolivianas na faixa de fronteira com Corumbá e outras localidades do Pantanal.

Major Carvalho, por sua vez, é apontado como um dos operadores que ajudaram a conectar a cocaína produzida na América do Sul aos mercados consumidores europeus. A polícia da Bélgica sustenta que ele transportou 45 toneladas de cocaína para a Europa, lucrando perto de R$ 3 bilhões.

A sequência revela uma curiosa permanência histórica. Os personagens mudam, são mortos, presos ou substituídos. O que permanece é a centralidade da fronteira.

Marcon vê uma mudança importante nesse cenário.

"De 20 anos para cá, me diz um nome que surgiu na fronteira. Não tem", afirma.

Na avaliação do delegado aposentado, organizações como o PCC absorveram ou substituíram os antigos chefes locais, transformando a região em um território de operadores facilmente descartáveis.

"Ninguém mais faz nome aqui na fronteira", resume.

Placa com a pichação 1533, alusiva à facção criminosa PCC. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

A posição geográfica estratégica, a proximidade com centros produtores de cocaína, a vasta extensão territorial, a integração econômica com cidades paraguaias e bolivianas e as dificuldades históricas de fiscalização ajudam a explicar porque a fronteira de Mato Grosso do Sul é um polo permanente de atração das sucessivas gerações de operadores do crime organizado. Junte-se a isso a infraestrutura de transporte que serve ao agro que mais cresce no país. Por esse corredor passam cerca de 40% das drogas que entram no Brasil.

Outra parte do problema está na capacidade dessas organizações de construir relações de influência que extrapolam o universo criminal e alcançam setores da política, da economia e do próprio aparelho estatal.

A Operação Carbono Oculto e seu mais recente desdobramento, a Fluxo Oculto, são hoje o maior exemplo desse fenômeno. A nova fase da investigação levou a Polícia Federal a endereços da Faria Lima, do Itaim Bibi e de Alphaville, em São Paulo, além da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, de Belo Horizonte e de Mato Grosso do Sul.

O foco são seis fintechs e empresas do mercado financeiro suspeitas de integrar uma estrutura usada para ocultar patrimônio e movimentar recursos ligados ao PCC. Segundo os investigadores, o grupo teria movimentado mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025.

Se uma das pontas da apuração está em Iguatemi, onde distribuidoras de combustíveis investigadas compartilhavam estruturas logísticas e movimentavam cifras bilionárias, a outra alcança alguns dos mais sofisticados centros financeiros do país. A geografia da operação ajuda a ilustrar o percurso do dinheiro: das distribuidoras instaladas na Rodovia das Balsinhas aos escritórios de alto padrão da Faria Lima.

A interpretação de Marcon ajuda a compreender essa transformação.

"Hoje o grande problema do crime organizado não é o transporte da cocaína. É o que fazer com o dinheiro arrecadado", afirma.

Segundo ele, o endurecimento dos mecanismos de controle financeiro obrigou as facções a buscar novos instrumentos de ocultação patrimonial.

"Começaram a criar fintechs, começaram a investir em bancos, começaram a investir em empresas nacionais."

Para o delegado aposentado, a fronteira continua relevante, mas o centro de gravidade do crime organizado migrou para outros ambientes.

"O criminoso não está mais na fronteira. O criminoso está nas capitais."

A prisão de Palermo oferece a oportunidade de revisitar uma questão que atravessa gerações. Fahd Jamil, Rafaat, Beira-Mar, Cabeça Branca, Major Carvalho e Palermo ajudam a contar a mesma história: a transformação gradual da fronteira sul-mato-grossense em um dos pontos de conexão entre a produção sul-americana de cocaína, os mercados consumidores internacionais e os circuitos financeiros que reciclam os lucros do crime. A decisão dos Estados Unidos de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, mesmo que isso possa ser mero pretexto, mostra até onde essa história chegou. O debate agora é se a nova abordagem fortalecerá o combate às facções ou criará obstáculos para mecanismos de cooperação policial e judicial construídos ao longo de décadas

Tempo no momento

Destaque Jurídico