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Por trás das telas, criminosos conquistam adolescentes e destroem famílias em MS

Rede de criminosos utiliza plataformas digitais para incentivar adolescentes a atos de violência extrema

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Morte de adolescente foi transmitida durante live em plataforma de jogos.

Internet, terra sem lei. Embora a premissa não seja absolutamente verdadeira, pois existem leis que penalizam crimes cometidos no campo virtual, o mundo on-line oferece perigos silenciosos, que muitas vezes só ganham voz quando as vítimas já não podem pedir socorro.

Correntes disseminadas por criminosos em diferentes plataformas podem induzir adolescentes a comportamentos violentos e de risco. Escondidos atrás das telas, eles utilizam diversas estratégias para conquistar o público-alvo, fazendo com que os jovens se afastem da família e se tornem cada vez mais vulneráveis.

Em Naviraí, cidade a 365 quilômetros de Campo Grande, uma adolescente de 13 anos morreu durante uma transmissão ao vivo no Discord, plataforma criada para facilitar a comunicação entre jogadores, mas que também passou a ser utilizada por grupos criminosos que têm crianças e adolescentes como alvo.

O caso, que chocou o país, traz à tona uma série de questionamentos sobre a relação entre adolescentes e a internet. Até que ponto eles estão protegidos no ambiente virtual? Por que se aproximam de criminosos e, ao mesmo tempo, distanciam-se da família? A resposta pode estar em um falso acolhimento.

Acolhimento virtual x distanciamento familiar

A busca por vítimas no ambiente virtual envolve um trabalho minucioso. Para atrair crianças e adolescentes, criminosos utilizam diferentes artifícios, entre eles, uma linguagem que se comunica diretamente com o público-alvo.

Eles identificam interesses em comum, demonstram entusiasmo por atividades e assuntos que fazem parte do universo da vítima e, aos poucos, constroem uma relação de proximidade. O objetivo é conquistar a confiança até que o jovem passe a enxergar aquele contato virtual como alguém em quem pode confiar.

Segundo a neuropsicóloga Keyth Gimenez, nesse processo, o que inicialmente parece ser acolhimento pode se transformar em uma forma de manipulação.

“Primeiro, eles acolhem, apoiam. E o que a gente percebe é que o desafio vem com essa ideia de eles pertencerem ao mundo, que é aí que o adolescente se prende. O desejo de pertencer, de ser acolhido, a adrenalina que às vezes pode parecer ser uma bobagem, uma brincadeira e depois eles se veem reféns desses grupos, que são verdadeiras quadrilhas”, frisa.

Neuropsicóloga Keyth Gimenez. (Foto: Madu Livramento, Midiamax)

Quanto maior o vínculo criado no ambiente virtual, maior pode ser o distanciamento de familiares e de outras pessoas que poderiam perceber os sinais de alerta e oferecer ajuda.

“A gente começa a ver o afastamento de outras pessoas, de membros da família. Eles começam a se esconder. Querem se isolar. Muitos manifestam tristeza. A gente tem que olhar, mesmo que se não conseguir ajudar, porque eles não estão deixando o caminho aberto, temos que buscar apoio, seja numa escola ou seja com os amigos. Muitas vezes, os amigos são os primeiros a perceber as mudanças”, observa.

A especialista também reforça que a forma como os criminosos agem é um alerta sobre a necessidade de os pais se envolverem e participarem da vida dos filhos. “A gente tem que conhecer o universo dos filhos. Muitas vezes, os pais pensam que o que o adolescente gosta é chato, mas é o mundo dele. Trazer esse mundo pra gente é importante para entender com o que estamos lidando”, orienta.

Apesar da aproximação necessária da família com o adolescente, a neuropsicóloga também destaca a importância em estabelecer limites.

“Eu costumo dizer que quem é bem-sucedido teve mãe e pai chatos. Em algum momento, os filhos vão achar, mesmo, que os pais estão chatos, que eles estão caretas, mas o amor e o afeto vêm com limites. Se eu amo, eu protejo. O limite é importante. Eles precisam disso. E o que eu sempre falo para os pais é: fiscalizem, orientem, a partir de uma certa idade, tragam dados reais”, sugere.

Suspensão de lives no Discord

A morte da adolescente em Naviraí repercutiu em todo o país. No dia 12 de agosto, a ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) determinou a suspensão das transmissões ao vivo na Discord, considerando que a vítima teria sido incitada a tirar a própria vida durante uma ‘live’ da plataforma.

A ANPD concedeu prazo de três dias úteis para a Discord suspender suas transmissões. A solicitação foi realizada após a Agência encontrar evidências de que a empresa não adotou medidas para prevenir e reduzir os riscos de violações de direitos de crianças e adolescentes.

Em nota, a ANPD informou que “as transmissões ao vivo têm sido usadas repetidamente para facilitar a violência, o assédio e o incentivo à automutilação e ao suicídio”.

Na sexta-feira (14), a Discord informou à ANPD que não conseguirá atender ao pedido dentro do prazo e solicitou a extensão para 15 dias úteis. O pedido é analisado.

Morte resultou em operação policial

Investigação recente conduzida pela DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente) constatou que um grupo criminoso utilizava plataformas digitais para localizar adolescentes em situação de vulnerabilidade emocional.

Conforme aponta a investigação, os criminosos atraíam os adolescentes, aproximavam-se e, depois, induziam os jovens a atos de violência, em alguns casos, contra a própria vida. Os desafios lançados por eles eram transmitidos ao vivo e compartilhados em diversos grupos.

No caso da garota, de apenas 13 anos, que morava em Naviraí, a situação resultou em morte. A adolescente tirou a própria vida durante uma live transmitida pelo Discord. A princípio, a suspeita é de que ela estivesse cumprindo um desafio. A tragédia foi comemorada na internet.

O caso passou a ser investigado pela Polícia Civil e culminou em uma operação contra o grupo criminoso, que usava ambientes virtuais para atrair adolescentes e submetê-los à prática de atos de violência extrema.

Durante a ação, batizada de Operação Lívia, foram cumpridos seis mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão preventiva contra um suspeito, de 18 anos, no Pará. As medidas foram executadas também no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Ceará. Conforme apurado pelo Midiamax, um adolescente de Aquidauana foi alvo de mandado de internação.

A reportagem do Midiamax tentou contato com a delegada titular da DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente), Anne Karine Trevizan, que comandou a Operação Lívia, para falar sobre a ação de criminosos que utilizam a internet para atrair adolescentes, mas não obteve retorno.

Uma solicitação de entrevista sobre o assunto também foi feita diretamente à assessoria de comunicação da Polícia Civil, mas não houve retorno.

Onde buscar ajuda?

Em Mato Grosso do Sul, o GAV (Grupo Amor Vida) oferece apoio emocional imediato para pessoas que estão precisando de ajuda por não se sentirem bem e por estarem em crise. O GAV é uma associação civil sem fins lucrativos, fundada no ano de 2001 e com sede em Campo Grande.

A pessoa que está mal e com pensamentos suicidas pode entrar em contato pelo telefone do GAV: 0800 750 5554.

Do outro lado da linha, voluntários estarão em regime de plantão, das 7h às 23h, inclusive sábados, domingos e feriados, para oferecer o apoio.

O GAV garante o anonimato, o sigilo e a não discriminação das pessoas que ligam pedindo ajuda, inclusive a identificação de chamadas está desativada nas operadoras de telefonia.

No nível nacional, outro grupo que oferece apoio é o CVV (Centro de Valorização da Vida), que realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar.

O CVV disponibiliza canais de atendimento diversos:

Telefone: disque 188;