O novo tarifaço anunciado pelo governo dos Estados Unidos de 25% sobre produtos brasileiros poupou os principais itens exportados por Mato Grosso do Sul aos norte-americanos.
A decisão é fruto de investigação do Escritório Comercial dos EUA, que acusou o governo brasileiro de “práticas injustificáveis, desarrazoadas ou discriminatórias de governos estrangeiros que oneram ou restringem o comércio dos EUA”.
O ofício dos Estados Unidos especifica as exceções das tarifas e cita materiais informativos, doações, bagagem acompanhada, todos os artigos e partes de artigos sujeitos às tarifas da seção 232.
Nesta seção 232, constam matérias-primas consideradas essenciais aos norte-americanos, que, segundo o documento oficial da Casa Branca, obtido pela reportagem, poderiam levar à indisponibilidade do abastecimento interno ou a perturbações na economia dos EUA, caso estivessem sujeitas à tarifa adicional.
Dessa forma, mais de 95% dos produtos exportados por MS aos EUA foram poupados do tarifaço.
Carne e celulose
Conforme dados oficiais da Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul), de janeiro a abril de 2026, MS exportou cerca de R$ 1,45 bilhão aos EUA, que são o segundo maior comprador de produtos do Estado, atrás apenas da China (R$ 4 bilhões).
Respondendo por 50% do que MS vendeu aos Estados Unidos, a carne bovina congelada ficou de fora da taxação, já que entra na categoria de alimentos. O produto gerou receita de cerca de R$ 731 milhões aos frigoríficos sul-mato-grossenses este ano.
O segundo item mais vendido por MS ao país de Trump é o ferro-gusa (24,8%), que também ficou de fora. A indústria norte-americana vê no minério posicionamento estratégico e, por isso, comprou R$ 359,4 milhões de MS somente de janeiro a abril deste ano.
Outro produto importante na balança comercial do nosso Estado é a celulose, que também é especificada na seção 302 e não será sobretaxada. O item corresponde a 14,7% de tudo que MS vendeu aos EUA neste ano, com volume de R$ 212,8 milhões.
Em menor escala, também constam como exceção do tarifaço a carne refrigerada (3,7% das vendas de MS aos EUA), carne bovina salgada/defumada (2,1%) e filés de tilápias (1%).
Em todo o ano de 2025, os Estados Unidos compraram R$ 2,7 bilhões de produtos sul-mato-grossenses.
Como medida pode afetar o etanol de MS
Um dos principais pontos para a decisão do governo dos EUA é a retaliação por causa do etanol. Isso fica bem claro no ofício, quando a autoridade norte-americana diz que o governo brasileiro tem práticas ‘irrazoáveis’ e ‘oneram ou restringem’ o comércio norte-americano.
Isso porque o governo brasileiro passou a taxar em 18% o etanol importado dos EUA, enquanto o etanol brasileiro chegava ao mercado norte-americano com tarifa de 2,5%, segundo a Fecombustíveis (Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes).
A diretora-executiva da Sociedade Rural Brasileira, Patrícia Arantes, diz, em artigo publicado pela Fecombustíveis, que a expansão de usinas de processamento de etanol em estados como Mato Grosso do Sul amplia a capacidade de exportação nacional, e isso pode estar no centro da disputa tarifária.
“Nos tornamos o principal competidor dos Estados Unidos, o que gera dificuldades comerciais”, explicou.
Mas isso pode ser bom para o mercado sul-mato-grossense.
Segundo o presidente do Sinpetro-MS (Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo e Lubrificantes MS), Edson Lazarotto, a disputa comercial pode levar a uma maior oferta de etanol no mercado interno. “Nesse caso, o etanol pode ficar mais competitivo frente à gasolina, beneficiando o consumidor”, explica o presidente.
As tarifas estadunidenses podem atingir o mercado do etanol de milho, que está em expansão em Mato Grosso do Sul. Apesar disso, não há indicação de aumento imediato dos custos do combustível nos postos.
“Se houver algum efeito de curto prazo, ele tende a favorecer a oferta de etanol no mercado, mas temos que aguardar como será imposta essa tarifa de 25% sobre o etanol”, concluiu Lazarotto.
